Motorista do presidente da Fecomércio diz que o chefe levava caixas de sapato com dinheiro para Accioly, o amigo de Aécio. Por José Cássio

Aécio, Accioly e Calainho

Se precisava de mais uma notícia ruim para fechar 2018 com chave de ouro, agora Aécio Neves já tem: seu amigo de noitadas, padrinho de casamento e apontado como suspeito de ser seu laranja na Lava Jato, Alexandre Accioly, é um dos citados na investigação que pode levar à delação premiada do ex-presidente da Fecomércio-RJ, Orlando Diniz.

Preso em fevereiro e solto em junho por uma decisão do ministro Gilmar Mendes, Orlando Diniz é acusado de lavagem de dinheiro, corrupção e organização criminosa na condução do sistema que controla a federação de sindicatos patronais do comércio (Fecomércio) e os Conselhos regionais do SESC e SENAC-RJ.

Entre as irregularidades investigadas pela Lava Jato, e que incluem as empresas do amigo de Aécio Neves, está a contratação irregular da Accioly Empreendimentos e Entretenimentos Ltda, para financiamento integral das edições 2010 e 2011 do evento “Sesc Noites Cariocas”.

A investigação mostra que os pagamentos para a realização dos eventos ocorreram antes das despesas serem realizadas.

Narra, ainda, por meio do depoimento à polícia de Elinaldo Bastos dos Santos, motorista do SENAC-RJ à serviço de Diniz por 14 anos, que, durante o evento “Noites Cariocas” o presidente da Fecomércio pediu para levá-lo ao apartamento de Alexandre Accioly, na avenida Vieira Souto.

Orlando Diniz, segundo seu motorista, subiu carregando uma sacola com diversas caixas de sapato, descendo minutos depois com as mesmas caixas e a sacola.

Deixou tudo na casa de seu pai, onde, diz o motorista, Diniz ia quinzenalmente para deixar sacolas cheias que recebia em seu escritório.

A denúncia informa que a contratação da Accioly Empreendimentos e Entretenimento Ltda foi efetuada sem seleção prévia do projeto, sem comprovação de preço de mercado e sem atender benefícios diretos e indiretos dos comerciários.

Relata que não houve comprovação da aplicação dos recursos recebidos, num montante de R$ 14,1 milhões e chama a atenção para um documento apreendido na sala da presidência da Fecomércio, local de trabalho de Orlando Diniz, contendo a relação de eventos patrocinados pelo SESC-RJ, entre eles o “Noites Cariocas”, organizado por Alexandre Accioly, “com um estranho custo adicional de 10%, referente a ‘outros custos’”.

Os representantes da procuradoria da República no estado do Rio de Janeiro pedem que Accioly apresente alegações de defesa ou devolva os valores recebidos aos cofres do SESC-RJ.

Não é a primeira vez que o Alexandre Accioly, amigo e apontado como operador financeiro de Aécio Neves, aparece nas investigações da Lava Jato.

O empresário Sérgio Andrade, acionista da construtora Andrade Gutierrez, já confirmou em depoimento à Polícia Federal ter assinado um contrato de fachada no valor de R$ 35 milhões entre a empreiteira e a AALU Participações e Investimentos S/A, propriedade de Accioly e do sócio Luiz Urquiza.

A suspeita é que o contrato tenha sido firmado para que o senador mineiro, que elegeu-se deputado federal para o mandato 2019-2022, favorecesse a empreiteira na construção da usina de Santo Antônio, no Rio Madeira, em Rondônia.

Accioly, no melhor estilo ‘fenômeno dos negócios’, reconheceu o contrato, mas numa nota enviada à imprensa alegou que o aporte seria porque se tornou sócio da Andrade Gutierrez, sem mencionar se Aécio também faz parte da sociedade.

Agora, citado na investigação que envolve os desmandos de Orlando Diniz à frente da Fecomércio, SESC e SENAC-Rio, Accioly perde o sono de novo – segundo advogados e investigadores as negociações para a delação estão avançadas.

O documento de 127 páginas aponta diversas irregularidades praticadas por Diniz, como a contratação de funcionários fantasmas, utilização de dinheiro em espécie para despesas pessoais e viagens ao exterior e gastos de R$ 180 milhões na contratação de escritórios de advocacia, entre eles o de Adriana Anselmo, mulher do ex-governador do Rio, Sérgio Cabral.

No capítulo que trata dos ilícitos praticados com o bon vivant padrinho do filho de Aécio Neves e sócio do apresentador Luciano Huck, a denúncia, distribuída à 7ª Vara Criminal Federal do Rio de Janeiro, não deixa margem para dúvidas.

“A conduta dos gestores pode ser caracterizada como ilegal e danosa aos cofres do SESC, devido a inobservância aos princípios licitatórios, impessoalidade e preços de mercado, expressos no Regulamento de Licitação e Contratos da Instituição”, diz um trecho do documento.