12 atletas do Brasil na Olimpíada já criticaram Bolsonaro nas redes

Comemoração de Paulinho. Imagem: Reprodução/CBF

Publicado no site do PCdoB

Numa Olimpíada disputada em meio à crise da Covid-19, era natural que atletas e delegações se manifestassem em apoio a medidas de restrições ou em solidariedade às vítimas da pandemia. Mas o Brasil também levou aos Jogos Olímpicos de Tóquio ao menos 12 esportistas abertamente críticos ao governo Jair Bolsonaro, conforme levantamento da consultoria Ideia Big Data.

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É o caso do atacante Paulinho, da seleção de futebol. Antes mesmo da Olimpíada, o jogador – que atua no Bayer Leverkusen (ALE) – já tinha o hábito de usar as redes para protestar contra o racismo e defender a diversidade religiosa. Ele é seguidor do candomblé e tem forte ligação com a umbanda.

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Entre os brasileiros nos Jogos de Tóquio, Paulinho é autor das manifestações mais duras contra o presidente. Com muita coragem, não só acusa as mazelas do governo – mas também defende o impeachment de Bolsonaro. Em 2020, seu colega e mais veterano jogador da seleção olímpica, o lateral-direito Daniel Alves, também criticou no Twitter as ações do governo na contramão do distanciamento social.

Ainda no futebol, três nomes da seleção feminina – a craque Marta, a goleira Aline Reis e a lateral-esquerda Tamires – contestaram Bolsonaro publicamente. Quando o presidente ironizou pedidos por melhor remuneração de jogadoras de futebol e, na prática, defendeu a desigualdade salarial entre homens e mulheres, o trio de jogadoras reagiu nas redes sociais.

Já na seleção masculina de vôlei, houve contraponto às demonstrações de apoio a Bolsonaro por parte de jogadores, comissão técnica e dirigentes. Em maio de 2020, o meio de rede Lucão retuitou posts contrários ao presidente após a demissão do então ministro Sergio Moro (Justiça).

O jogador também é um dos principais símbolos da luta em defesa das medidas de combate ao novo coronavírus. Nos jogos de sua equipe, o Taubaté, pela Superliga Brasileira de Vôlei, Lucão atua de máscara – cena que se repetiu em Tóquio. Segundo ele, além do cuidado pessoal, é uma forma de preservar o filho, Théo, de 4 quatro anos. “A ideia é evitar ao máximo ter de me afastar por causa da contaminação”, diz Lucão. “O segundo motivo é que tenho um filho pequeno com tem alguns problemas, como bronquite – e a grande preocupação, claro, é o risco de contaminá-lo”,

É menor o número de atletas pró-Bolsonaro, como o atirador Felipe Wu, que compete no tiro esportivo e adere à pauta armamentista. O velocista Gabriel Constantino, atleta dos 110m com barreiras, usou recentemente, em post no Instagram, o slogan eleitoral adotado por Bolsonaro em 2018 – “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. Mas nada além do clichê.

Segundo Mauricio Moura, CEO da Ideia Big Data, há uma tendência mundial de posicionamentos de atletas sobre temas políticos, incluindo estrelas como a tenista japonesa Naomi Osaka e a ginasta norte-americana Simone Biles. “Pela dinâmica de contratos com patrocinadores e para evitar situações desconfortáveis, os atletas fazem mais manifestações sobre questões políticas do que propriamente sobre políticos”, diz.

Para o sociólogo Ronaldo Helal, professor da Uerj, a formatação da carreira de esportistas tende a afastar muitos de manifestações de cunho político ou levá-los a seguir uma “etiqueta” nas redes. “O estafe dos atletas orienta sobre questões como lugar de fala, além dos perigos de tocar em certos assuntos pela polarização política nas redes. Isso leva a um certo controle desses posicionamentos”, diz Helal.

O levantamento da Ideia Big Data, baseado em perfis de 20% dos atletas olímpicos brasileiros, distribuídos por 25 modalidades, indica que, nas redes, parte cada vez maior deles vai além dos registros de treinos e competições ou de cenas da vida particular. Ao menos 30 atletas de um grupo de 52 integrantes da delegação brasileira em Tóquio costumam se manifestar na internet sobre assuntos que vão desde questões raciais e de gênero até pautas como a legalização da cannabis.

Na edição deste ano, o Comitê Olímpico Internacional (COI) abriu de forma inédita a possibilidade de manifestações políticas durante os Jpgps, antes passíveis de sanções. A mudança veio ao encontro de um contexto mundial no qual atletas cobram abertura para se posicionar e também vêm sendo cobrados pela sociedade para fazê-lo. No levantamento, feito em Facebook, Instagram, Twitter, YouTube e TikTok, o recorte obedeceu a critérios como o número de seguidores e o perfil do atleta ser público.

Temas como o apoio à vacinação contra a Covid-19 e pautas de igualdade racial e de gênero foram abordados por 26 integrantes do Time Brasil – alguns se posicionaram sobre mais de um desses assuntos. A imunização, principal medida para frear a disseminação do novo coronavírus, foi incentivada pelo Comitê Olímpico do Brasil (COB) para os atletas que iriam ao Japão. Dezenove deles fizeram posts defendendo a importância da vacinação.

Onze dos 13 competidores que se posicionaram sobre questões de gênero são mulheres. Em relação a temas raciais, dos oito que se manifestaram, sete são negros. A exceção é o ginasta Arthur Nory, criticado por injúrias raciais proferidas contra o então colega Ângelo Assumpção no Pan-2015, em Toronto.

“Em pautas como raça e gênero, atletas têm se posicionado bem mais, pois a sociedade vem exigindo que pessoas públicas relevantes usem sua voz. Assim como as marcas, eles também perceberam isso”, diz Fernando Fleury, PhD em marketing esportivo. “Não se posicionar em alguns momentos é uma posição. Muitas vezes, isso pega mal.” A seu ver, posições firmes ajudam as marcas que procuram se vincular a atletas, desde que haja “congruência com questões reais, e não apenas um storytelling bonito”.

Com informações do O Globo

Fora Bolsonaro. Foto: @podrepoder/Reprodução